Artigos e Notícias
5/7/2007
As cores do espetáculo

Por Cristiano Avila Maronna. Publicado originalmente na Folha de São Paulo em abril de 2005

 

Jogavam duas equipes de futebol, uma brasileira, outra argentina. Na transmissão televisiva, um locutor branco, em momento de rara iluminação, tem a impressão de que um zagueiro argentino branco ofendeu a honra do adversário, brasileiro e negro, proferindo insultos de cunho discriminatório no calor da refrega. Isso com base na indefectível leitura labial. De um falante da língua espanhola. Roma locuta, causa finita.

 

A partir dessa impressão, o locutor, encarnando a indignação pátria, passa a açular as massas, com imagens repetidas ad nauseam. O jogador brasileiro, expulso de campo, foi questionado pelo repórter branco se fora chamado de negro pelo argentino e respondeu que não diria nada "para não dar ênfase". Não precisava. O locutor, por mais de uma hora de transmissão televisiva ao vivo para todo o país, deu toda a ênfase. A cruzada patriótica estava posta em marcha. E o Macaco Simão, desta feita, não estava à frente dela.

 

Um secretário branco, defronte ao seu televisor, como se fora um xerife de farwest, sugestionado pela cruzada patriótico-televisiva do locutor, mandou um delegado branco - ele também (mais) um telespectador da apologética transmissão - prender o atleta argentino. Direito Penal como ultima et extrema ratio? Nem pensar. Mas, e a Justiça Desportiva, interrogação.

 

Parafraseando o locutor Fiori Giglioti, assim que o árbitro apitou o final do jogo, o espetáculo começou. Ainda no gramado, o delegado deu voz de prisão, em portunhol, ao argentino, cercado por policiais brancos. Tudo ao vivo e a cores. Todas as cores. Um verdadeiro big brother. Na TV, no rádio, na internet e no jornal, sem interrupção. Campeão de audiência.

 

O caso ganha repercussão internacional e as massas querem a Lei de Lynch. Ah, o show da vida é fantástico. Insuflada, a audiência quer sangue. O sangue vermelho do argentino branco. O exemplo brasileiro ao mundo nos enche de orgulho cívico verde e amarelo. 

 

Nosso passado escravocrata pesa nas nossas consciências, necessitamos de um bode expiatório, de um Satã para purgar nosso genuíno, porém dissimulado, preconceito hereditário. Nada melhor do que um branco. E argentino. E, ainda por cima, zagueiro. Vivas à xenofobia! No Brasil, não toleramos o racismo, não é mesmo?

A discriminação e o preconceito ancestrais são um flagelo que se manifesta em todo o mundo. Todos devemos repudiar o racismo, deplorável sob qualquer aspecto. O que não dá para aceitar é a histeria, o frenesi e, especialmente, a hipocrisia espetacularizada.

 

O episódio dá azo a pelo menos duas reflexões. A primeira e mais importante diz com o encaminhamento da questão. As violências e arbitrariedades perpetradas dão a impressão de que, de uma hora para a outra, como em um surto psicótico coletivo, a punição antecipada passou a significar a solução de todos os males que afligem a lavoura nacional. Algema no irmão, digo, hermano. Lincha! E a torcida vibra. Olé!

 

A súbita epidemia de falta de bom senso foi atenuada pela intervenção de um juiz de direito branco. Mas um branco de rara sensibilidade. Que compreende, na sua integralidade, o sagrado papel do juiz como garante dos direitos fundamentais. De todos. Negros, brancos, amarelos e vermelhos. De qualquer pátria: somos todos apátridas (mas não afrátridas), reunidos pelo elo comum e recíproco da eminente dignidade humana. Salve a diversidade e o multiculturalismo!

 

Pertencemos todos à grande família humana, composta de seres imperfeitos. De todas as cores. E todos, sem exceção, temos direito à proteção contra o abuso do poder estatal.

Em um momento de catarse coletiva, é tranqüilizador saber que um juiz de direito, com voz eloqüente, fez prevalecer o império da lei. Prisão cautelar, só quando comprovadamente indispensável. Queimar hereges na fogueira caiu em desuso, para descontentamento de uns certos alguns.

 

A justiça só pode ser feita com um mínimo de serenidade, de equilíbrio. De imparcialidade. A presunção de inocência nasceu para todos, inclusive estrangeiros. Do contrário, liberticídio.

Um outro aspecto que merece reflexão é o modo como o mass media transforma o drama em novela. Os mercadores da miséria humana dançaram ao ritmo do tango argentino. Os vocalizadores da consciência nacional ferida, tais quais bustos falantes, vociferam a uma só voz: "caterva de lunfardos", "boludos". "Argentinos racistas". E dá-lhe, Brasil, il, il.

 

No fim, remédio para as conseqüências. Causas intocadas. The show must go on. Ah, já ia me esquecendo: para não passar em branco, abaixo o preconceito. Dentro e fora de campo.

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